Agostinho de Hipona e a redescoberta do potencial terapêutico da teologia narrativa para a saúde mental

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Davi C. Ribeiro Lin
https://orcid.org/0000-0002-3426-4640

Resumo

Visto que a tarefa da terapia era uma preocupação da antiguidade clássica, a filosofia helenística produziu compreensões complexas sobre o tema da doença, tratamento e saúde que inspirariam Agostinho de Hipona (354-430) a adaptar esses ideais dentro de uma estrutura teológica. Confissões (397-401) propõe uma experiência diante da graça divina que fomenta efeitos terapêuticos, uma proposta que busca gerar saúde e esperança para sua audiência (Conf 10.3.4). Entretanto, durante o século XX, as Confissões de Agostinho foram tomadas como estudo de caso por teorias psicanalíticas e psicoterapêuticas. As fragilidades e ambiguidades narradas por Agostinho foram consideradas material biográfico para ser encaixado em conceitos da teoria psicológica ou psicopatologia. Diante da tarefa de reposicionar o diálogo entre os estudos agostinianos e estudos psicológicos, o presente artigo sugere que é necessário refazer um percurso, superando um problema metodológico a partir de um tripé: primeiramente, a recuperação histórica da visão de terapia filosófica da antiguidade, situando culturalmente, historicamente e teologicamente o intento original da visão terapêutica de Confissões; posteriormente, um reposicionamento do diálogo interdisciplinar entre psicologia e teologia. Apesar das inadequações de leituras psicologizantes de Agostinho, ler Confissões em parceria com a psicologia contemporânea, permitindo a fertilização cruzada, é uma tarefa válida e necessária, como na aproximação conceitual com a Experiência Elementar em Psicologia; finalmente, a apreciação e condução de novas iniciativas interdisciplinares que não só fortaleçam a compreensão histórica ou psicológica das Confissões de Agostinho, mas busquem compreender, aplicar e testar empiricamente sua abordagem teológica narrativa em seus efeitos de saúde mental.

Palavras-chave:
Agostinho de Hipona, Confissões, Terapia, Diálogo interdisciplinar, Narrativa, Saúde mental, Experiência elementar, Cura animarum, Metodologia, Teografia

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