A relação entre palavra e deserto na semântica bíblica e na vocação salvífica da tradição judaico-cristã

Conteúdo do artigo principal

Waldecir Gonzaga
https://orcid.org/0000-0001-5929-382X
Luiz Henrique Lucas Barbosa
https://orcid.org/0000-0003-4911-9160

Resumo

Este artigo analisa a relação umbilical entre dois termos importantes para a exegese bíblica e para a tradição teológico-espiritual judaico-cristã: palavra e deserto. Em hebraico eles encontram um sentido espiritual ainda maior, tendo em vista que dābār tem grande semelhança semântica com midbār. Mais que trazer toda a riqueza da história bíblica transcorrida no deserto, o que se pretende é demonstrar que esse é um lugar privilegiado da escuta da palavra. No deserto acontecem histórias de amor que só poderiam ser escritas pelo coração de Deus. Tanto o Antigo Testamento quanto o Novo Testamentos estão permeados dessas histórias. Algumas delas são aqui relembradas e esperamos contribuir para relativizar a visão negativa do que seja o deserto. Para tanto, o artigo procura analisar a íntima relação que há entre os termos palavra e deserto, seja na assonância semântica, seja no tema da espiritualidade, que une os dois termos. O deserto é lugar não apenas de aridez e solidão, devido às suas questões climáticas, mas é sobretudo de escuta da Palavra de YHWH, justamente por ser um lugar sóbrio e duro ao mesmo tempo, para o qual Deus conduz seu povo a fim de falar a seu coração (Os 2,16). Esta realidade é testemunhada ao longo de todas as Sagradas Escrituras, perpassando os vários corpora bíblicos, a exemplo do Pentateuco, dos Profetas e dos Evangelhos. Assim como Israel fez sua experiência de ser conduzido ao deserto para escutar e discernir a voz de Deus, da mesma forma João Batista, o precursor do Messias; igualmente, o próprio Jesus Cristo, a fim de entrar em maior intimidade com o Pai e vencer as tentações (Mc 1,12-13 Mt 4,1-11; Lc 4,1-13), escutando a voz que clama no deserto (Mc 1,3; Is 40,3), pois nele Deus fala carinhosamente a seu povo e lhe entrega sua palavra.

Palavras-chave:
Deus, Palavra, Deserto, Solidão, Árido, Relação, Diálogo, Amor, Encontro, Espiritual, Profetas, Biblia, Antigo Testamento, Novo Testamento

Detalhes do artigo

Biografia do Autor

Waldecir Gonzaga, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

Doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma, Itália) e Pós-Doutorado pela FAJE (Belo Horizonte, Brasil). Diretor e Professor de Teologia Bíblica do Departamento de Teologia da PUC-Rio. Criador e líder
do Grupo de Estudos Análise Retórica Bíblica Semítica, credenciado junto ao CNPq.

Luiz Henrique Lucas Barbosa, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

Mestrando em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Membro do Grupo de Estudos Análise Retórica Bíblica Semítica, credenciado junto ao CNPq.

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